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Este blog é dedicado aos amantes da língua portuguesa, àqueles que querem sempre aprender mais e aos que querem conhecer melhor nossa empresa. A valorização da língua portuguesa é nosso maior objetivo e nossa maior alegria! Esperamos que façam bom proveito das informações aqui postadas!

Nossa Empresa

  19 Junho 2008
A 3GB Consulting é uma empresa de consultoria em comunicação corporativa, que busca desenvolver soluções e otimizar o contato entre empresas e clientes.
Nosso objetivo é proporcionar a qualificação do material utilizado por empresas na comunicação com seus clientes e com o público em geral. Assim, os serviços envolvem traduções e versões de textos (português, inglês, italiano e francês); e envolvem também – e principalmente – a revisão dos textos em português utilizados pelas pessoas jurídicas dos mais variados portes (desde micro até grandes empresas), suprimindo erros, aperfeiçoando a comunicação e proporcionando excelência no uso da língua culta padrão. Além de melhor transmitir a mensagem, queremos agregar qualidade e melhorar a percepção formada pelo público sobre o emissor do conteúdo transmitido. Através do uso do português claro e correto, buscamos melhorar a comunicação entre as partes, trazendo ganhos para todos.
Prestamos consultoria nas mais diversas áreas da comunicação, com trabalhos envolvendo diferentes idiomas, revisão, correção e qualificação do uso do idioma no relacionamento empresa-público, sempre com ética e procurando a satisfação total dos nossos clientes.

Inculta e bela

  10 Julho 2008
Da Folha de São Paulo de hoje:

PASQUALE CIPRO NETO
"Lugar qualquer (em) que não exista..."
No dia-a-dia, quem é que não diz algo como "Os países que eu fui", "A rua que eu moro" ou "A roupa que eu estava"?
EDSON TRINDADE COMPÔS "Gostava Tanto de Você", um dos tantos sucessos de Tim Maia. Diz a letra: "Pensei até em me mudar / Lugar qualquer que não exista / O pensamento em você / E eu gostava tanto de você...".
Nas questões discursivas dos mais importantes vestibulares e concursos públicos do país, é comum a exigência da noção de que determinados procedimentos podem ser comuns em certos registros lingüísticos e inexistentes em outros. Trocando em miúdos, é comum, por exemplo, que se peça ao candidato que aponte as marcas típicas da linguagem coloquial presentes num texto. Não raro, pede-se também a troca de registro, isto é, pede-se que se reescreva o texto adaptando-o à "modalidade escrita da língua".
Nesse território, a canção de Trindade é prato cheio. O trecho "lugar qualquer que não exista o pensamento em você" apresenta um procedimento típico da linguagem oral -o emprego do pronome relativo "que" sem a preposição "em" ("em que não exista"). No dia-a-dia, quem é que não diz algo como "A rua que eu moro", "Os países que eu fui", "A roupa que eu estava ontem" etc.?
Se a letra de Trindade fizesse parte de uma questão em que se pedisse o que já mencionei e, também, que se justificasse a alteração feita, seria necessário dizer de onde vem esse "em". Esse "em" vem do verbo "existir" (algo existe em algum lugar).
Pois não é que, quando gravou (lindamente) a canção de Trindade, a paraense Leila Pinheiro adequou a letra ao padrão formal da linguagem? Pode ouvir. Com arranjo mais lento e interpretação comovida e comovente, Leila Pinheiro diz "lugar qualquer em que não exista o pensamento em você".
Pois é aí que entra a velha história do guarda-roupa lingüístico. Tim preferiu uma roupa; Leila, outra. Ambos têm razão, desde que se observe: a) o fato de que o que é comum num determinado registro pode não ser em outro; b) a "roupa" deve ser adequada à situação.
Nesta semana, tive a honra de entrevistar, para o "Nossa Língua", o professor de língua portuguesa José Carlos de Azeredo, da Uerj.
Trocamos duas palavras sobre o pronome "cujo", que alguns arautos da pós-modernidade lingüística dão como "morto", razão pela qual querem que o dito-cujo seja banido das aulas de língua materna. Azeredo e eu discordamos radicalmente dessa sentença de morte. Pois bem. Como sabemos que nem de longe o pronome "cujo" deixou de freqüentar as variedades formais da língua, sobretudo na escrita, convém saber que construções como "Aquela moça, que o pai foi processado por desvio de dinheiro público...", que usamos no dia-a-dia, na linguagem oral, espontânea, assumem outra forma na língua culta. Nesse caso, cabe o relativo "cujo", que expressa relação de posse (a moça tem pai; o pai é dela): "Aquela moça, cujo pai foi processado por desvio de...".
E se se quisesse dizer que todos confiavam no pai da moça? Vamos pensar: a) a forma "no" resulta de "em + o"; b) se alguém confia, confia "em"; c) o pai é da moça, é dela. Pois lá vai a frase, adequada ao padrão formal: "Aquela moça, em cujo pai todos confiavam...". "Em cujo pai?" Em se tratando de linguagem formal, sim, "em cujo pai". E sem "o" depois de "cujo". É isso.

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Traduções

  14 Julho 2008
Da Folha de S. Paulo, dia 13 de julho de 2008.
Palavras ao vento

Ofício de traduzir influencia não só o sucesso da obra mas também a imagem de um país diante de ideologias locais
PETER BURKE
COLUNISTA DA FOLHA

Os problemas e perigos da tradução já foram discutidos muitas vezes, e não foi preciso esperar pelo encantador filme de Sofia Coppola de 2003 para nos darmos conta do que é "perdido na tradução" [Lost in Translation, lançado no Brasil como "Encontros e Desencontros"].
O filósofo espanhol José Ortega y Gasset [1883-1955] certa vez descreveu o projeto da tradução como sendo "utópico", e, na Alemanha, Johann Gottfried Herder já tratava do assunto no final do século 18.
Herder imaginou alguém tentando traduzir a obra do poeta francês setecentista Prosper de Crébillon para a língua dos lapões, e esse experimento mental o levou a indagar se algumas idéias ou mesmo textos não seriam "unübersetzbar" -"intraduzíveis".
Neste artigo -traduzido de minha versão inglesa original- eu gostaria de examinar esses problemas a partir de um ângulo particular: o das palavras intraduzíveis.
Muitas pessoas gostam de dizer que certas palavras de suas línguas maternas são intraduzíveis. Os franceses às vezes afirmam que "esprit" [espírito], "galanterie" [galanteria] e até mesmo "politesse" [polidez] não têm equivalente reais em outros idiomas.
Os ingleses não sabem ao certo se estrangeiros compreendem o que eles querem dizer quando falam num "sportsman" [esportista, pessoa com espírito esportivo] ou "gentleman" [gentil-homem, cavalheiro]. No caso do alemão, vêm à mente termos como "geist", suspenso no espaço lingüístico em algum lugar entre "espírito", "mente" e "cultura".
Em português, palavras como "saudade", "jeitinho", "malandro", "sacanagem" e "safadeza" criam problemas especiais para aqueles que gostariam de traduzi-las.
Saudade
Afirmações desse tipo não devem ser aceitas incondicionalmente. Em russo e em turco, assim como no português, um dos termos dos quais mais comumente se alega que é intraduzível -"saudade", "toska" ou "hüzun" (uma das palavras favoritas do escritor turco Orhan Pamuk)- significa algo como "nostalgia", "anseio" ou "melancolia".
Talvez seja mais exato dizer que determinadas palavras são especialmente difíceis traduzir para outras línguas.
Mestiço
A palavra "mestiço", por exemplo, não é fácil de traduzir ao inglês, pois aparentes equivalentes como "half-breed" ou "half-caste" soam pejorativos -resíduos lingüísticos de preconceitos antigos. Mesmo assim, essas afirmações sobre intraduzibilidade têm, sim, algo de importante a nos revelar sobre os valores das diferentes culturas em que são feitas.
Foi por essa razão que a escritora russa expatriada Svetlana Boym pediu recentemente um "Dicionário de Intraduzíveis", enquanto o narrador de "Shame" [Vergonha, 1983], romance do anglo-indiano Salman Rushdie, que passou sua vida na fronteira entre culturas e línguas, observa que, "para decifrar uma sociedade, observe suas palavras intraduzíveis".
Entre essas palavras, aprende o leitor, está "sharam", um termo em urdu que, segundo nos é dito, não é adequadamente traduzido por "vergonha".
Para serem compreendidas por estrangeiros, palavras desse tipo requerem uma tradução não apenas lingüística, mas também aquilo que hoje é conhecido como "tradução cultural".
O sociólogo húngaro Karl Mannheim [1893-1947], que, como Rushdie, viveu na fronteira entre culturas e línguas -depois de refugiar-se na Grã-Bretanha na década de 1930 e tornar-se professor na London School of Economics-, queixou-se certa vez da "urgente necessidade e grande dificuldade de traduzir uma cultura em termos de outra".
Domesticação
Essa metáfora foi adotada por antropólogos e outros acadêmicos interessados no estudo dos encontros culturais. Hoje, "tradução" exprime o que os escritores oitocentistas queriam dizer quando escreviam sobre "ocidentalizar" ou "anglicizar" ou Gilberto Freyre, quando falava em "abrasileirar" ou "tropicalizar".
Poderíamos falar igualmente bem em "domesticar", mas a metáfora da tradução possui a vantagem de nos lembrar da importância da língua nos encontros e nos intercâmbios culturais. Tome-se o caso, bastante comum nos últimos dois séculos da história mundial, de uma cultura em que alguns indivíduos que exercem liderança desejam seguir modelos estrangeiros.
Foi o caso, por exemplo, no Japão após 1868, quando a restauração do poder do imperador, que durante muito tempo fora mera figura representativa, estava vinculada ao desejo da elite política de modernizar o país, adotando modelos estrangeiros.
Uma parte da elite esperava por uma monarquia constitucional ao estilo britânico, enquanto outras desejavam um sistema mais autoritário.
Foi nessa época, em 1871, que o ensaio do filósofo inglês John Stuart Mill "Sobre a Liberdade" (1859) foi traduzido ao japonês.
A tradução foi feita por Nakamura Keiu, um estudioso confuciano empregado pelo governo que se convertera ao cristianismo e era um intelectual japonês destacado da época.
Nakamura visitara a Inglaterra em 1866 e ficara impressionado pelo fato de que, em suas palavras, uma nação pequena governada por uma mulher tinha sido capaz de derrotar o antes poderoso império chinês. Ele endereçou um memorial ao imperador, "Sobre a Imitação dos Ocidentais", e traduziu "Self-Help" (Auto-Ajuda), um manual para o sucesso escrito por outro inglês vitoriano, Samuel Smiles.
As conseqüências que se seguiram à publicação da tradução de Nakamura ilustram com clareza especial o problema do que Roberto Schwarz, famosamente, já descreveu como "idéias fora do lugar". Um dos problemas mais sérios para o tradutor do ensaio de Mills era a ausência, no japonês, de um termo equivalente ao inglês "liberty" (liberdade).
Algumas pessoas usavam a palavra inglesa, pronunciando-a "riberuchi", ou optavam por "freedom", que pronunciavam "furidomi".
Mas o tradutor optou pelo termo japonês tradicional "jiyu". A decisão de Nakamura teve a vantagem de fazer o conceito inglês parecer menos exótico, mais fácil de assimilar. Seu livro popularizou-se rapidamente, vendendo milhares de cópias.
Formação de elite
O preço da decisão tomada por Nakamura Keiu foi que os leitores de sua tradução provavelmente entenderam "jiyu" em termos de suas associações tradicionais negativas, por exemplo com voluntariosidade e também com egoísmo.
O resultado lingüístico do debate em torno da tradução da palavra "liberty" pode ter afetado o resultado político do debate sobre a nova Constituição japonesa, algo que encorajou a elite em sua opção coletiva por uma forma de monarquia menos autoritária.
Uma moral dessa história é que os tradutores carregam uma responsabilidade pesada, pois suas escolhas em termos de palavras podem ter conseqüências sérias.
Mesmo assim, o ônus não cabe unicamente a eles. O estudo dos intercâmbios culturais e da tradução cultural sugere que, quanto maior a distância entre duas culturas e, especialmente, entre seus valores fundamentais, mais difícil se torna a tarefa do tradutor.
Além de certo ponto, traduzir se converte em "Missão Impossível".


PETER BURKE é historiador inglês, autor de "O Que É História Cultural?" (ed. Zahar). Escreve na seção "Autores", do Mais!.
Tradução de Clara Allain.
A vírgula

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) completou cem anos em abril e aproveitou para lançar uma campanha muito útil a todos os brasileiros, não só aos jornalistas. Ela defende o uso correto da vírgula.
Todas as pessoas alfabetizadas escrevem. Escrevem e-mails, bilhetes, cartões, teses, contratos, receitas, blogs e mais um sem-fim de palavras. Algumas escrevem para si mesmas, e, nesse caso, até dá para perdoar um certo relaxamento, mas a maioria escreve para ser lida por outro alguém, e quem faz isso ambiciona ser compreendido. Então. O uso correto da vírgula é crucial para alcançar esse objetivo.
No entanto, o critério para “uso correto” continua sendo, para muitos, o da respiração. As pessoas escrevem como se estivessem conversando, e se imaginam que fariam uma pausa dramática num determinado momento, pronto: decidem que ali cabe uma vírgula. Entendo. Eu, às vezes, faço a mesma coisa. Por exemplo, deu vontade de não colocar entre vírgulas o “às vezes” que acabei de escrever. Preferiria ter escrito: “Eu às vezes faço a mesma coisa”, porque eu, normalmente, falaria essa frase de forma veloz, e não pausada. Mas a vida não é tão simples. Salvo algumas licenças poéticas, é preciso seguir à risca os mandamentos da vírgula. Não me pergunte quais são, não sei, sempre escrevi por instinto, mas a ABI sabe e resolveu entrar nessa campanha dando exemplos muito práticos, que transcrevo abaixo.
“A vírgula pode ser uma pausa... ou não:
Não, espere.
Não espere.
Ela pode sumir com seu dinheiro:
23,4%
2,34%
Pode ser autoritária:
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.
Pode criar heróis:
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
E vilões:
Esse, Juiz, é corrupto.
Esse Juiz é corrupto.
Ela pode ser a solução:
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião:
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
A campanha termina dizendo que a vírgula muda tudo. Dou outro exemplo. Dia desses, um moço mandou um e-mail para um programa de rádio que começava assim: “Eu como colono...” O radialista ficou injuriado, que pouca-vergonha era aquela? A vírgula que faltou poderia ter evitado o mico. “Eu, como colono, gostaria de...”. Pois é. Pequeninha, mas salva até reputações.
...................
Publicado no jornal Zero Hora, em 06 de agosto de 2008, página 3

Restrição e explicação

  04 Setembro 2008
PASQUALE CIPRO NETO 

Quantas são as feias da festa?
Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa...
O MAIS RECENTE vestibular da FGV (Fundação Getulio Vargas) apresentou uma questão relativa ao emprego da vírgula antes do pronome relativo "que". A banca pediu aos candidatos que comparassem as seguintes construções, "observando sua pontuação":
"Nesta festa, só beijarei as meninas, que são feias"; "Nesta festa, só beijarei as meninas que são feias".
Em seguida, a banca pedia aos candidatos que assinalassem "a alternativa correta quanto ao sentido dessas frases". Eis as alternativas:
"a) A primeira afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; b) A primeira afirma que somente as meninas feias serão beijadas; as bonitas não; c) A segunda afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; d) A segunda afirma que somente as meninas bonitas serão beijadas; as feias não; e) As duas frases afirmam que as meninas bonitas serão beijadas".
A esta altura, o leitor talvez esteja atordoado com tantas exclusões e generalizações (todas serão beijadas; só as bonitas, só as feias...). Peço-lhe um pouco de calma e paciência e, por enquanto, um certo "desprezo" pela seqüência de opções.
Apesar de reproduzirem algo um tanto inverossímil (é pouco provável que alguém diga ou escreva a segunda frase; parece mais natural imaginar que se diga "Só beijarei as meninas feias" ou "Só beijarei as feias"), o fato é que há por trás de tudo isso uma velha conversa: "Quando se restringe, não se virgula; quando se generaliza, virgula-se". Grosso modo, é assim mesmo. Quem lê uma frase como "Trabalharei apenas com as meninas rebeldes", por exemplo, provavelmente entenda de imediato que: a) em determinado grupo algumas meninas são rebeldes e outras são "conformistas"; b) trabalharei só com as rebeldes.
No caso visto, o adjetivo "rebelde" tem papel restritivo, por isso não é separado por vírgula do substantivo que qualifica. Seguindo a mesma linha que norteou a banca da FGV, compare agora estas frases: "Os deputados extenuados deixaram o plenário"; "Os deputados, extenuados, deixaram o plenário".
E então? Que percebe o leitor?
Que foi realizada uma extenuante sessão do Parlamento -durou horas e horas a tal sessão. No primeiro caso (sem as vírgulas), informa-se que deixaram o plenário os deputados extenuados; os que ainda tinham energia permaneceram. No segundo caso (com "extenuados" entre vírgulas), informa-se que todos os deputados de que se falava deixaram o plenário extenuados.
Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa funciona(ria) do mesmo modo, mas... Mas o fato é que, talvez por exigir conhecimento um tanto específico, o emprego da vírgula antes da oração explicativa (aquela que generaliza) nem sempre é observado. O resultado disso é que muitas vezes se lê algo como "Os jogadores que desconhecem as regras receberão instruções de árbitros da Fifa" no lugar de "Os jogadores, que desconhecem as regras, receberão instruções de...".
A primeira frase informa que só os jogadores que desconhecem as regras receberão as instruções; a segunda informa que todos os jogadores de que se fala desconhecem as regras e receberão as instruções. Sim, já sei: falta a resposta do teste da FGV. Acho que você já sabe, não? Vamos lá: é "a", certo? É isso.
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................................Publicado na Folha de São Paulo em 04 de setembro de 2008, p. C2

Frases ambíguas

  18 Setembro 2008
"Vidas em implantação" - Pasquale Cipro Neto
A CONCESSIONÁRIA que administra a rodovia Presidente Dutra anuncia que brevemente (ufa!!!) haverá radares ao longo da autopista. Foi a querida Teresa Garcia, editora-chefe do "Jornal Hoje", da TV Globo, que me deu a notícia, com a fiel transcrição desta preciosidade, presente nos cartazes afixados pela NovaDutra em vários pontos da estrada: "Radares que salvam vidas em implantação".
Brinquei com Teresa, dizendo-lhe que a frase poderia decorrer de um ato falho da concessionária, talvez sabedora de que, quando se entra nessa (e em quase todas as "rodovias" brasileiras), a vida passa a estar por um fio. Seja pela precariedade das "estradas", seja pelo comportamento dos nossos irresponsáveis motoristas, estar numa "autopista" brasuca é ter a vida em constante "implantação" -é pura roleta-russa.
A esta altura o leitor certamente já captou o xis do problema: estamos de volta à "alegre fábrica" de frases estruturalmente ambíguas ou de duplo sentido explícito mesmo, sem contar aquelas que não transmitem o sentido desejado. Uma dessas é ouvida a bordo dos nossos aviões de carreira: "Desligue o seu celular mantendo-o desligado durante todo o vôo". De acordo com a frase, o modo de desligar o celular é mantê-lo desligado durante o vôo (!!!???). Que tal a velha conjunção "e"? Vejamos: "Desligue o seu celular e mantenha-o assim/desse modo durante o vôo". Às vezes, uma simples inversão resolve o problema. Em "Ele atropelou um cavalo correndo pela avenida", por exemplo, há uma ambigüidade que pode ser desfeita com a inversão da ordem das orações: "Correndo pela avenida, ele atropelou um cavalo". Em outros casos, embora se limite à estrutura, a ambigüidade deve ser eliminada. Uma frase como "Ele encontrou o gato varrendo a rua" deve ser alterada para "Varrendo a rua, ele encontrou o gato".
E a coisa não pára por aí. Pense nesta frase: "Ela encontrou os filhos vendo televisão". Quem estava vendo televisão? Ela ou os filhos? Se era ela que estava vendo televisão, pode-se entender que os filhos estavam desaparecidos e foram vistos por ela num programa de TV.
Antes que me esqueça, voltemos à frase da NovaDutra. Parece razoável pensar em algo como "Estamos implantando ("instalando" parece melhor, não?) radares, que salvam vidas" (ou "para salvar vidas"). Para ficar mais perto da frase original, uma hipótese viável seria "Radares em instalação, para salvar vidas" (ou, com mais ênfase, "Para salvar vidas, estamos instalando radares").
Há algum tempo, um site publicou esta pérola: "Ex-cirurgião plástico afirma ter sido perseguido por mulher esquartejada...". Nem no mais sombrio dos filmes de terror! O problema está no duplo valor de "esquartejada" (adjetivo e particípio).
Seria mais seguro algo como "Ex-cirurgião afirma que foi/era perseguido por mulher que ele esquartejou".
Se você pensou em algo como "Ex-cirurgião afirma que esquartejou mulher porque ela o perseguia", é bom parar para pensar. Com o emprego do "porque", cria-se uma relação de causa e conseqüência que talvez não corresponda aos fatos ou ao cerne da afirmação do ex-cirurgião.
A conclusão é a de sempre: reler não faz mal a ninguém. Criar certos dispositivos de "defesa" também é bom. Um dos dispositivos pode ser, por exemplo, o disparo automático do alarme em caso de uso de gerúndio, de particípio, do relativo "que", do possessivo "seu"... É isso.
...........................
Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 18 de setembro de 2008.
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